Um Mil novecentos de Noventa e um,
por volta das 10:00 Hs, como sempre, adentrava eu no prédio da gazeta,
localizada na Avenida Paulista, subindo as escadarias e atingindo o segundo
pavimento da torre de transmissão. Que visão maravilhosa! Que brisa refrescante!
A Avenida Paulista, que outrora
ostentava suntuosos casarões dos Barões do café, era dona de uma fama
inigualável “o coração financeiro da capital paulista”.
Visão longínqua, prédios
imponentes, veículos e pessoas parecendo formigas enfileiradas transportando
seus alimentos para o formigueiro...
Espera ai!
Alguma coisa estava errada naquele cenário.
Três jovens, dois meninos e uma
menina, sentados no terraço de um prédio inacessível por vias normais, pois o
local não se dava ao lazer, mas sim para eventuais manutenções nas telhas e na
caixa d´água.
Estavam compartilhando algo que
parecia um cigarro.
Compartilhando um cigarro? Mas à
época tratava-se de um artigo barato e seu valor e acesso não exigia tal
conduta. Se fosse cigarro, todos estariam fumando o seu.
Parecia algo que possuíam em
pequena quantidade e dificil de se obter. Isso devido à fiscalização da Polícia.
Pelo sim ou pelo não, com a
finalidade de tirar tamanha dúvida, fomos, eu e os policiais que me
acompanhavam, até o mencionado prédio, onde coincidentemente, ao atingirmos o
último andar do imóvel, nos deparamos com os três adolescentes descendo uma
escada estreita e fixada na parede.
Ao constatarem nossas presenças,
seus comportamentos logo denunciaram a atitude que sabiam ser errada.
Jovens bem afeiçoados, bem vestidos
e moradores de um prédio localizado em área nobre de São Paulo.
Confirmada estava as minhas suspeitas.
Todos compartilharam um cigarro recheado de maconha, vulgarmente conhecido como
“baseado” ou “paranga”.
Muito embora tivessem consumido
tudo, o cheiro característico da droga, impregnado no cabelo, nas roupas e,
principalmente, nas mãos confirmavam o contato íntimo com aquilo que, no
inicio, alguns dizem ser prazeroso, contudo, no futuro, acaba em sofrimento
para o usuário e para a sua família.
Alguns de vocês, queridas e
queridos leitores, podem ter pensado: “que situação chocante!”. Mas isso não me
chocou, pois, desde aquela época, no cumprimento da atividade policial não era raro
encontrar jovens portando ou consumindo drogas.
Ao invés disso, confesso que fiquei
surpreso e chocado, verdadeiramente chocado, com a conduta de um dos pais dos
jovens ali presentes. Ao invés de questionar o seu filho sobre tal conduta, o
pai questionou a atitude dos policiais em estarem adentrando ao prédio sem a
autorização dos moradores.
Por que o pai, diante do erro do
filho, agiu daquela forma?
Com essa pergunta e após o pai
entender que a Polícia poderia adentrar nas áreas comuns, como hall e
corredores, é que sai daquele lugar.
Só alguns anos atrás, quando
assistia a um programa de entrevista, ouvi do entrevistado, um renomado médico
psiquiatra e autor de vários livros sobre educação famíliar e escolar, de que o
pai que adota tal postura, o de defender seu filho quando comete atitudes
erradas, nada mais esta fazendo do que compensar a sua ausência.
Verdade! Ali estava a explicação da
conduta que por tantos anos me incomodou.
Pais ausentes, conscientes ou não,
depois do crescimento e amadurecimento dos seus filhos, sem a sua participação,
tinham receio de corrigi-los e, em compensação, buscando atrair a sua
confiança, equivocadamente, os protegiam dos erros cometidos o que, na
infância, por meio de uma boa orientação, poderiam ser evitados.
Não sei o que ocorreu com os jovens
com quem tive contato no ano de 1991.
Espero sinceramente que não tenham
se enveredado para o uso das drogas, o que, como já disse, resultaria em
profundo sofrimento e tristeza para eles. Espero sinceramente que aquele pai,
que ao invés de questionar seu filho, criticou a conduta dos policiais, não
esteja sofrendo com o vício, incurável, do seu filho. Espero sinceramente que
casos como a de uma senhora, fato ocorrido em São Paulo, degolada por seu neto,
o qual estava sob efeito de drogas, não se repitam.
Espero sinceramente que vocês,
queridas mamães e queridos papais, não tenham o receio de corrigir seus filhos
na Infância e na adolescência.
Participem do crescimento corporal
bem como do amadurecimento intelectual deles. Faça com que a presença de vocês
fique registrado de maneira feliz nas mentes daqueles que no futuro trarão as
respostas positivas das dúvidas de hoje.
Comemorem, em sua essência, o dia
dos pais e, o que é mais atual, o dia das mães.
Enfim, utilizando de uma frase célebre
antiga, porém plenamente aplicável na atualidade, “Eduquem seus filhos hoje
para que não tenhamos que punir os adultos de amanhã” ( Pitágoras).
Pensem nisso e sejam Felizes!
Capitão
Felício Kamiyama
