sábado, 3 de agosto de 2013

FUNCIONÁRIOS FANTASMAS



Pelo título, muitos de vocês, queridas leitoras e queridos leitores, pensaram eu que fosse tecer comentários às várias pessoas que, no nosso país, são contratados funcionários públicos e não comparecem para o trabalho, o que, além de imoral, causa sérios prejuízos aos cofres públicos.

Não...não é delas que vou falar.

Muito ao contrário das posturas daqueles que ganham muito e não trabalham, quero tecer comentários àquelas pessoas que trabalham muito, mas muito mesmo, e recebem pouco.

Pessoas que possuem os mesmos afazeres e responsabilidades que todos nós, pois são avôs, avós, pais, mães e filhos, enfim são responsáveis por suas famílias.

Certa vez, caminhando pela cidade, uma cena me chamou a atenção.

Um homem, após ter consumido o último cigarro, verificando que próximo a ele havia uma senhora cuja profissão é de varredora de rua, também conhecida carinhosamente como “MARGARIDA”, mesmo havendo lixeiras instaladas ao longo da via, como, também, mesmo estando perto do carrinho de resíduos utilizado pela mesma, jogou a embalagem do produto no chão.  

Aquela senhora, cujo rosto não podia ver, pois coberto estava por um chapéu de palha de abas largas, ao verificar a conduta daquela pessoa, mesmo tendo ela já varrido aquele local, retornou e, sem alterar seu comportamento, tranquilamente, com sua "pazinha", recolheu o maço de cigarro amassado.

Diante daquela cena, com o propósito de me solidarizar e parabenizá-la por seu ato, procurei me aproximar da mesma, ocasião em que, por surpresa, tratava-se de uma pessoa conhecida.

Abraços e beijos foram os atos que externaram tamanha alegria de ambos pelo reencontro.

Sem interromper seu trabalho, conversamos muito sobre o passado e a situação da minha família e de cada um dos seus filhos.

Viúva ainda jovem e com três filhos ainda adolescentes, aos 30 anos, teve que largar seus afazeres de casa e procurar um reforço no sustento de sua família. Com pouca instrução, conseguiu emprego como varredora de rua, profissão essa que, com orgulho, segue até hoje.

Mãe sempre atenta e preocupada com o comportamento e futuro dos seus filhos, além da atividade registrada em carteira, fazia os chamados “Bicos” de limpeza em restaurantes, casas de família e Buffet.

Pesados, segundo ela, foram os anos que passou com o recente falecimento do seu marido, porém, graças ao empenho dela e da colaboração dos seus três filhos, conseguiu sua casa própria e, o que é mais importante, sem dívidas.

Quanto aos seus filhos, estão todos eles formados e trabalhando, a ponto de pedirem para que ela parasse com suas atividades e, como um desejo de todos os filhos gratos a seus pais, descansar.

Os apelos dos filhos, muito embora recebidos com carinho, não se sobrepuseram ao objetivo dessa maravilhosa senhora que esta prestes a se aposentar.  Muito embora com uma idade avançada, tem suas aspirações e seus sonhos.

Voltando ao assunto que me fez aproximar da mesma, comentando com ela sobre a postura de indiferença daquele homem, a senhora me disse que aquela atitude não é a que mais a “machuca” no dia a dia.

O que mais ofende e fere, segunda a mesma,  o íntimo daqueles que desempenham a profissão dela é o fato das pessoas não as enxergarem. 

Não existe um “bom dia” ou um “com licença” ou até um “bom serviço para você”.

Como um obstáculo nas vias, as pessoas, sem olhar para os varredores de rua, desviam deles e seguem seu tão apertado e atribulado compromisso.

São pessoas e não obstáculos que estão nas ruas. São trabalhadores que, com a sua atividade, procuram manter as vias e praças limpas e, dessa forma, melhorar a nossa qualidade de vida.

São pessoas que possuem sentimentos e que carregam, em sua trajetória de vida, uma história de luta, perseverança e vitória.

Por isso, como todos os empregados domésticos e funcionários braçais, devem ser consideradas e merecedoras do nosso mais profundo respeito.

Pensem nisso e sejam Felizes.


Capitão Felício Kamiyama

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